HISTÓRIA DO TEATRO Prof. Jorge Ferro Piqué, professor de Língua e Literatura Grega (Universidade Federal do Paraná)Conferência realizada dia 15 de setembro de 1997 às 18:30. Normalmente encaramos uma tragédia grega como um livro sobre o
qual nos debruçamos intelectualmente com o objetivo de extrairmos
dele alguma compreensão sobre como os gregos sentiam o trágico
em suas vidas e como o expresssavam artisticamente. Portanto, percebemos uma continuidade da temática do "florescimento" que marca este mês. Mas havia também uma Dionísia urbana no inverno, para marcar o fim do trabalho anual e que em Atenas ocorria no início de Janeiro. Já as Dionísias rurais eram de menor proporção e aconteciam em dezembro nos distritos rurais da Ática. Nelas, um bando de foliões, um kômos, carregando um falo de grandes proporções, cantava canções para Dioniso, as chamadas "canções fálicas". Nos intervalos, o lider divertia os espectadores com vulgaridades, na forma de monólogo ou diálogo. Muitos autores consideram que foi justamente o kômos uma das origens do coro, um dos aspectos mais particulares do drama grego, tanto na tragédia como na comédia, como veremos mais a frente. As Dionísias Urbanas ou Grandes Dionísias tinham a seguinte forma: - iniciavam-se por uma procissão que escoltava uma antiga imagem de Dioniso ao longo da estrada que conduzia à cidade de Eleutéria e regressava depois ao altar do deus, em Atenas, onde um bode era sacrificado em meio a danças e canções, - uma virgem conduzia a procissão através do caminho, adornada com ornamentos dourados, portando a cesta sagrada, cheia de bolos e flores. Os outros participantes da procissão conduziam presentes rurais (uvas, figos, vinho) e o animal a ser sacrificado. Um falo era carregado no alto. Neste cortejo (gr.pompé, existe o termo latino equivalente pompa) é que podemos perceber a forma fundamental da constituição de grupos. Da massa amorfa são destacados os participantes ativos que se dirigem para um objetivo, mas a interação com o outro grupo que se forma simultaneamente ao longo do caminho, os espectadores, é tão importante quanto o próprio objetivo pelo qual se forma o cortejo. O objetivo da pompé é naturalmente um santuário no qual terá lugar o sacrifício, mas o próprio caminho também tem significado, é "sagrado". Em algumas procissões religiosas são apresentadas já dramatizações de caráter mimético da partida, o abandono do santuário, prefigurando no ritual já a forma dramática. Dentro do grupo dos participantes ativos, por sua vez existem papéis bem definidos, como a portadora do cesto, ou os portadores do falo, no caso das Grandes Dionísias. Em outras procissões temos a portadora da água, o portador do fogo, das taças, etc. Os participantes indicam o seu estatuto particular não apenas pelo vestuário festivo, mas também pelas coroas, faixas de lã e pelos ramos que levam nas mão. Esse uso de sinais exteriores dos papéis a serem exercidos no ritual serão sem dúvida apropriados mais tarde pelo teatro. O monumento clássico que permite uma visualização completa de uma grande pompé é o friso das Panateneias no Partenon. |
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Partenon, O frizo das Panatéias. Este instrumento duplo de sopro provavelmente teria um som mais próximo ao oboé ou a gaita de foles escocesa, nada relacionado portanto à sonoridade suave das nossas flautas atuais e mais apropriado aos êxtases dionisíacos. Desde cedo Dioniso foi associado à idéia de irregularidade, seja no ritmo ou na linguagem a princípio, e consequentemente nos próprios sentimentos. Essa ciclotimia se reflete bem na falta de restrições que encontramos na poesia coral dionisíaca executada nos sacrifícios ofertados nas festas a esse deus. Em geral assumiam a forma de um hino em celebração das dádivas de Dioniso. Neste hino a música era executada no modo frígio, reforçando um dos mitos de uma origem não-grega do deus, que teria vindo da Frígia. Hoje, no entanto, sabemos que o culto de Dioniso é muito antigo na grécia, remontando a época micênica. Aproveitamos para lembrar que na antiga Grécia havia outros centros de culto dionisíaco além de Atenas, como Tebas, Corinto e Naxos. O verso utilizado era o ditirambo e o hino assumia a forma de uma dança coral acompanhada de gestos e movimentos ilustrativos. Essa dança mimética denominava-se órchesis. As características especiais de Dioniso acabaram por atrair outros seres a princípio de origem heterogênea tais como os sátiros, seres com características animalescas que representariam forças vigorosas da natureza, paixões e emoções da mente humana. Em geral são representados como covardes, sensuais, livres e bem-humorados e com um pênis em permanente ereção. Havia também os Silenos, sátiros velhos, bêbados e lascivos. Já as Bacantes ou Mênades eram entidades femininas, às vezes ninfas, às vezes mulheres, que tomavam parte no cortejo de Dioniso com os cabelos soltos e enfeites florais e cuja forma de contato com a divindade era o êxtase, o entusiasmo. Vemos igualmente associados a Dioniso os Centauros, representantes também da força e do vigor natural e amantes da embriaguês e finalmente Pan, deus da vida rural. Será justamente nesse ambiente religioso e festivo que será
introduzido a posteriori o teatro. Isso ocorreu em Atenas no séc.
VI a. C. sob a tirania de Pisístrato. Mas os grandes nomes da tragédia grega no séc. V a.C. são sem dúvida Ésquilo, Sófocles e Eurípides. Infelizmente chegaram até nós apenas cerca de uns 10% de sua produção total. Sete tragédias de Ésquilo, sete de Sófocles e 18 de Eurípides. Já nas Dionísias rurais eram reapresentadas peças que haviam sido produzidas nas Dionísias Urbanas para o público do interior da Ática. A princípio as peças apresentadas nas Dionísias Urbanas não podiam ser reapresentadas em Atenas, mas a partir da morte de Ésquilo em 456 a.C., devido ao seu enorme prestígio, suas peças foram remontadas, provavelmente por seu filho. Alguns autores na verdade consideram que Prometeu Acorrentado não fosse de sua autoria, mas sim de seu filho, que a teria montado usando o nome do pai. Portanto o teatro trágico grego tem uma dupla ambientação: religiosa, por um lado, já que se insere no calendário festivo-religioso, mas conjuntamente, política, pois é também uma festa estatal. Cabe a cidade, a polis, se incumbir dos preparativos para a sua realização. Com o desenvolvimento do gênero teatral, que praticamente tornou-se o gênero literário mais importante na Grécia durante o séc. V a.C., as Grandes Dionísias atraem um público cada vez maior. É a própria cidade, Atenas, que se reúne em peso para assistir anualmente, em um momento especial do calendário religioso, tragédias e comédias. É portanto para a pólis que as peças serão direcionadas. Mas não só. Aos poucos, estrageiros também participarão, muitos vindos de outras cidades gregas, mas outros vindos mesmo de outros países, exclusivamente para assistir as representações teatrais. O teatro ateniense passa a ser cada vez mais o rosto mais atrativo que a cidade mostra de si mesma, símbolo de sua importância cultural diante de seus vizinhos e de certa forma, parte da política hegemônica ateniense na área do Mediterrâneo oriental a partir das vitórias contra as invasões persas. Passaremos a seguir a observar mais de perto a programação desse conjunto de manifestações religiosas, políticas e artísticas que eram as Grandes Dionísias ou Dionísias Urbanas após a regulamentação instituída por Pisístrato. O festival se estendia por seis dias, dos dias 10 a 15 do mês Elafebolión, o que corresponde em nosso calendário a finais de março e inícios de abril. Durante esses dias além das atividades propriamente religiosas aconteciam quatro tipos de apresentações artísticas na forma de concursos: ditirambos, comédia, drama satírico e tragédia. Destas, as três primeiras tem um vínculo claro com Dioniso, já para a tragédia a relação não é tão óbvia. No dia dez, um grande cortejo conduzido pelo arconte-rei e protegido pelos efebos, jovens de 16 a 18 anos, acompanha a estátua de madeira de Dionísio Eleutério, o Libertador, que é trazida para a cidade. À noite, essa estátua será levada ao teatro a luz de tochas. Deste cortejo participam todos os concorrentes nas diversas modalidades poéticas. Durante todo este primeiro dia um grande sacrifício de inúmeros animais, uma hecatombe, alimenta animados banquetes por toda a cidade. Nos dias 11 e 12 temos os concursos de ditirambos, que eram cantados em louvor a Dioniso em coros de homens e crianças. No passado, na realidade ou através de uma simulação, esses coros de origem muito antiga acompanhariam um rito de sacrifício dionisíaco com dilaceração e o consumo das carnes da vítima viva e do seu sangue ainda quente. Na noite do dia 12 para o dia 13 havia um grande kômos, procissão irreverente de foliões com faloforia, transporte do falo, no qual apareciam figuras disfarçadas e mascaradas, em geral de sátiros ou de animais. Seu argumento era em geral rudimentar. Havia uma entrada em cena tumultuada, uma discussão por motivo fútil e um discurso-bufo final. O kômos foi na verdade um espécie de embrião da comédia. No dia 13, havia justamente o concurso de comédias. Nelas temos retomado o argumento simples do kômos em uma forma mais elaborada nas suas três partes principais: a) párodo, entrada tumultuosa do coro, evocando eventualmente uma cena conhecida; b) agón, disputa entre as personagens, e c) parábase, quando o coro dirigi-se diretamente ao público, solicitando-o como testemunha. No entanto a comédia diferencia-se do kômos por já não apresentar com tanta frequência Dioniso e seu cortejo. Os dias 14 e 15, os dois últimos dias do festival, eram reservados aos concursos trágicos. Neles, cada autor apresentava três tragédias, a chamada trilogia, e finalizava com um drama satírico, chamado também de drama silênico. Todo o conjunto das 4 peças constituía a tetralogia. |
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A trilogia em seus princípios apresentava unidade temática. Apenas uma trilogia temática chegou até nós, a "Orestia", ou a "Trilogia de Orestes", de Ésquilo. Nela, a primeira tragédia representava o regresso e morte de Agamêmnon nas mãos da esposa, Clitmenestra; na segunda, seu filho, Orestes, o vinga matando a própria mãe, e na última Orestes, é inocentado do matricídio pela intervenção da deusa Atena. Apesar da grandiosidade deste tríptico, a trilogia de mesmo tema praticamente não foi mais usada por Sófocles e Eurípides, sendo cada uma das tragédias em cada trilogia uma unidade em si. O elemento mais importante do drama satírico e que por isso lhe dava nome era o coro de sátiros que representava sob a forma de danças acrobáticas o aspecto exterior da mania, a loucura decorrente da possessão divina. Eram algo semelhantes às tragédias na forma, mas aproveitavam os detalhes grotescos da lendas antigas no seu conteúdo. Uma das nossas mais importantes lacunas em relação ao teatro grego deve-se ao fato de apenas um drama satírico ter chegado completo até nós pela tradição, os "Ciclopes" de Eurípides, além de um fragmento extenso dos "Icneutas" de Sófocles. É interessante essa composição de tragédias e drama satírico em uma unidade maior, da qual em geral temos apenas a porção trágica. Muitos autores associam a tragédia ao sacrifício de um animal. Como vimos, nas Grandes Dionísias era sacrificado um bode a Dioniso. Bode em grego é tragos. Em geral a morte de animais na caça ou em sacrifícios estavam associados a sentimentos de culpa pelo sangue derramado que em tudo é igual ao do próprio caçador ou sacrificador. O animal abatido precisa ser apaziguado de certa forma para que não perturbe o seu matador. Em geral uma série de rituais ou atitudes tem essa função Pois bem, se a trilogia trágica é o momento do sacrifício, do derramamento de sangue, da matança, deve haver alguma compenção em cena. Burkert, portanto, considera natural que às tragédias sucedesse um drama satírico, pois os bodes seriam trazidos de novo ao palco, agora vivos, na verdade transbordantes de vida e energia, revertendo os maus fluidos através da ressurreição e assim fechando um ciclo. Já do ponto de vista do espectador depois de uma sequência de três tragédias, há uma grande quantidade de tensão naturalmente acumulada e que teria seu momento de liberação através do drama satírico. Gostaria de enfatizar agora o caráter competitivo das representações teatrais. Esse caráter, na verdade, como sabemos desde Nietzsche , é uma das forças motrizes da cultura grega. Como diz Burkert, "é surpreendente a quantidade de coisas que entre os gregos se podem tornar objeto de competição: esporte e beleza corporal, artesanato e arte, canto e dança, teatro e disputa". O enfrentamento, a competição pública (agón), parece atrair irresistivelmente os gregos e todas as suas festas apresentam algum tipo de competição. Não devemos nos esquecer que a civilização grega tem um caráter fortemente público. Desde os poemas homéricos, os heróis tem o seu status definido pelos feitos que realizam publicamente, diante de iguais. Os Jogos Olímpicos, cujo primeiro registro é de 776 a.C., são o exemplo máximo dessa compulsão competitiva em festivais religiosos, no caso, em homenagem a Zeus e de caráter pan-helênico, onde não só atletas de várias cidades gregas competiam nas diversas provas, mas também poetas e oradores. O espírito agonal também marcará a tragédia grega, não só pelo fato exterior da competição entre os próprios tragediógrafos, mas o incorpora como uma de suas partes mais essenciais, a cena de enfrentamento, como veremos mais adiante. Assim é importante sabermos que os autores apresentam suas peças desejando muito vencer e isso acaba por estabelecer um forte vínculo entre o criador e o público para o qual ele cria. Esse público é em geral amplo, pois todos participam, estrangeiros, metecos, isto é, estrangeiros residentes em Atenas, mulheres e talvez mesmo escravos Os espetáculos se sucediam ininterruptamente da manhã até o meio da tarde. A luz solar é um elemento constitutivo do teatro grego que nossas encenações modernas em geral não apresentam, constrangidas pelo palco italiano. O ambiente durante a encenação provavelmente era o de qualquer festival, com agitação e tumulto devido ao público muito grande, e provavelmente havia consumo de comida devido a longa duração, o que nos lembra um pouco o tipo de público que Sheakspeare teve em suas peças. Esse enorme público era devido ao grande acontecimento que eram as representações teatrais. Em primeiro lugar era a grande festa de Dioniso, que por si só era motivo de atração, além disso havia o caráter único de cada apresentação, que durante muito tempo não voltaria a ser exibida, a curiosidade geral para saber como seria tratado um tema já conhecido por todos, e o simples prazer das pessoas que se reúnem para uma atividade em comum. É nesse ambiente de festa religiosa, festa do espírito
e da coletividade que as tragédias eram apresentadas e por isso
tiveram um grande papel na formação de espírito "nacional"
de Atenas.
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